É bem comum vermos em redes sociais, como na rede Instagram, psicólogos comunicando publicamente. Mas o que é que eles essencialmente fazem? É sobre compartilhar suas vidas profissionais? Sobre um esforço de comunicação em marketing? Ou eles querem ajudar as pessoas? Vamos refletir sobre o papel (ou melhor, os papéis) que eles desempenham naquela hora. O que eles estão essencialmente executando? Ou eles estão publicando somente por publicar?
Neste artigo consideraremos não só a essência desse papel, mas também nuances, estilos e variações. Vamos considerar o lado bonito, mas também desafios tanto para o psicólogo como para a audiência.
Papéis desempenhados por psicólogos na experiência comunicativa online
Quando um psicólogo publica no ambiente público, por exemplo, nas redes sociais, ele não está simplesmente publicando o conteúdo por publicar. Temos que reconhecer, em primeiro lugar, que essas ações, por meio de experiências comunicativas, ocorrem para uma audiência geral ou um público específico. Considere, nas ideias abaixo, alguns possíveis papéis dessa comunicação:
Traduzir conceitos psicológicos complexos em linguagem acessível - por meio de analogias, eles podem trazer temas específicos para que leigos possam compreender questões envolvendo assuntos como: ansiedade, depressão, trauma, questões com base nos relacionamentos, por exemplo.
Sobre as ferramentas - enquanto fazem distinção entre o processo terapêutico, ainda assim apresentam, de certa forma, algumas ferramentas como exercícios para regulação emocional, por exemplo, meditação, estratégias e rotinas de autocuidado, dentre outros.
Mais clareza sobre estigmas sobre saúde mental - eles normalmente trazem um olhar consciente sobre muitas questões que estão mal entendidas em nosso meio cultural social.
Estimular o cuidado psicológico - eles conduzem mais abertura por meio de suas narrativas, oferecendo suporte para que as pessoas possam buscar ajuda (por exemplo, buscar terapia). Eles trazem pensamentos estruturados para que as pessoas possam sentir que esse caminho existe para elas, que é normal e que, mais do que isso, faz diferença.
Mais percepção para o debate público - eles trazem mais consciência social, educando e regulando questões emocionais e as questões das relações que estão ligadas ao ambiente construtivo social no âmbito cultural.
Mas por que é certas comunicações parecem artificiais ou mercadológicas?
Quando é que isso aparece? E isso é um problema, seja para as pessoas ou para o psicólogo? Vamos então refletir sobre algumas dessas questões.
Uma visão que nos faz pensar que a comunicação é mercadológica é justamente quando ela é normal demais, tipo já vista antes. Ou quando aparenta não ter um valor único, sem identidade.
Nós sabemos hoje que existe milhares de psicólogos que, debaixo da pressão de ter uma presença online, acabam terceirizando grande parte da comunicação. São influenciados por "profissionais" de comunicação que trabalham muito na formatação e embelezamento. Mas veja bem, temos que reconhecer que mesmo assim um conteúdo pode não causar grande mal. De uma forma ou outra, os profissionais psicólogos estão revisando. Então aqui levantamos a ideia de que eles estão cientes que o conteúdo pode não ser o único nem muito especial, mas também não é prejudicial.
Desta forma, temos que reconhecer que existem várias ferramentas, inclusive o uso da inteligência artificial, onde posts em mídias sociais podem ser gerados de forma automática. Então, estes posts passam no teste da gramática, carregam estruturas de comunicação razoavelmente profissionais e passam aquele tom especial que realmente é difícil conquistar enquanto autor. Neste e muitos desses casos, o usuário final muitas vezes percebe, de certa forma, que é um post bonito, mas não deixa de ser só mais um post. Este é um primeiro ponto para uma reflexão.
Já, um segundo ponto: Devemos lembrar que, se muitos profissionais usam as mesmas ferramentas, com a mesma infraestrutura tecnológica por trás, de uma forma ou outra acabamos recebendo o mesmo tipo de conteúdo. Eu iria dizer que é como se fosse um meme daqueles onde compartilhávamos na íntegra. Mas temos que reconhecer que agora estamos em uma outra fase, onde o compartilhado está diferente. Então eu diria, reformulando, que é como se fosse um meme, mas da minha cor, do meu estilo, com a minha foto, com a minha imagem de fundo.
Mas isso é prejudicial para psicólogos?
Pode ser prejudicial em alguns casos, principalmente quando esse profissional não vê retorno naquilo. Esse cenário seria relevante se, de fato, ele estivesse utilizando energia, focando, e não percebesse o retorno, ficando frustrado.
Uma outra situação é que o engajamento da audiência pode significar um retorno que cria a percepção de sucesso. Mas, dado que a medição do sucesso é definida em grande parte pela audiência que engajou — por meio de seus likes e comentários — surge uma possível situação em que o sucesso leva a um caminho trilhado que nada mais é do que retroalimentar a própria profecia. A questão que deve ser levantada é se esse caminho é, de fato, o caminho que aquele profissional gostaria de trilhar.
Em outras palavras, essencialmente, temos que considerar que, enquanto para alguns profissionais isso não é um problema maior, para outros poderia criar um distanciamento ou uma dissonância entre aquilo que fazem e aquilo que gostariam de fazer. Isso poderia levar à frustração.
Sobre a comunicação virtuosa
Agora temos que reconhecer que existe um cenário em que a comunicação externa ocorre em resposta a um processo anterior: um processo interno e um processo de construção que nascem a partir da experiência profissional da vida real.
Por exemplo, muitos profissionais psicólogos estão ajudando as pessoas, de fato, vivenciando na prática, acompanhando as relações humanas, tudo isso bem de perto. Com isso, podem reconciliar a teoria com a prática diante do contexto cultural, social e econômico.
Então, quando eles voltam para o externo, para cuidar da experiência comunicativa (como indicado anteriormente), tornam-se aqueles tradutores, de certa forma. Trazem clareza, criam narrativas, criam analogias, convidam a cuidar da saúde mental e convidam ou conduzem suas audiências a buscar ajuda.
Por exemplo, temos que nos lembrar do papel da comunicação de psicólogos durante a pandemia, quando foram protagonistas, trazendo clareza para as pessoas em um momento difícil e de muita confusão. Então, aqui, temos que reconhecer que existem muitas experiências comunicativas que são, de fato, virtuosas. E temos que fazer essa ligação: essas experiências comunicativas virtuosas, definitivamente, nascem a partir da experiência prática e da reconciliação entre a teoria e a prática.
Eu penso que muitos desses profissionais têm um potencial de escrita muito além do que acreditam. Com um pouco mais de paciência e com rotinas específicas — por exemplo, escrita meditativa, páginas matinais — podem se envolver mais no processo virtuoso que antecede a comunicação externa e que leva em consideração a consolidação e as abstrações a partir das experiências e da prática do dia a dia.
Outros casos
Temos também que reconhecer outros cenários. Por exemplo: um psicólogo pode estar desempenhando um papel de empreendedor e literalmente desenvolvendo um produto.
Pense em um livro, uma situação em que o profissional psicólogo, como autor, está expondo ideias que, logicamente, ao mesmo tempo convidam a audiência a um envolvimento maior.
E, ainda assim, mesmo quando possuem certos produtos específicos para um momento específico, temos que lembrar que vários profissionais, como psicólogos, também continuam atuando como terapeutas. Ou seja, a existência de um produto, de uma forma ou outra, cria credibilidade ou conduz a um outro processo, a uma outra proposta de valor.

